
Por Ziel Machado (Cristianismo hoje)
A realidade do crescimento evangélico brasileiro nos coloca diante de situações onde o primeiro obstáculo é o analfabetismo funcional de pastores e líderes.
Alguns meses atrás, a chamada de destaque de um programa semanal de TV chamou minha atenção. A matéria mostrava um pastor evangélico que, com base em sua leitura do Antigo Testamento, ensinava que teria o 'direito biblico' de adulterar com irmãs de sua igreja. Como resultado deste ensino, alguns maridos consentiram que suas mulheres mantivessem relações íntimas com o tal pastor. Na matéria, o repórter indaga-lhe sobre a suposta base bíblica. O pastor, com voz altiva, desafiou o repórter e 'a qualquer um', a provar, biblicamente, que seu ensino, com base em Oséias 1.2 estava errado. O texto citado diz o seguinte: 'Quando o Senhor começou a falar por meio de Oséias, disse-lhe: 'Vá, tome uma mulher adúltera e filhos da infidelidade, porque a nação é culpada do mais vergonhoso adultério por afastar-se do Senhor'.'
O repórter, desconfiado, pediu então ao pastor que fizesse uma leitura do texto, em voz alta. Tropeçando nas palavras, ele leu: 'Vá, tome uma mulher, adultera'. Logo deu para perceber que, na sua leitura, o adjetivo 'adúltera' se transformava no verbo imperativo 'adultera' O pastor, além de ter problema com as vírgulas, não sabia reconhecer o acento agudo... Eu não desejaria estar na pele daquele homem no momento em que fosse admitir tamanho erro perante sua congregação.
A realidade do crescimento evangélico brasileiro nos coloca diante de situações como essa, onde o primeiro obstáculo é o analfabetismo funcional de pastores e líderes. É gente que reconhece as letras do alfabeto, mas não sabe ler. E não podemos delimitar este problema do uso inadequado da Bíblia aos segmentos mais populares da Igreja Evangélica brasileira. Mesmo em setores mais privilegiados, é possível identificar equívocos na forma como se lida com a Bíblia. Alguns crêem que o simples fato de citar um versículo torna seu ensino bíblico. Outros organizam suas mensagens em três pontos: lêem o texto, se esquecem do texto e jamais regressam ao texto. Temos também aqueles que insistem em usar a Bíblia como o papagaio de realejo que, com um fundo musical apropriado, pega um texto aqui, outro acolá, forçando conexões pouco respeitosas à tradição de exegese bíblica – ou ainda pior, pouco respeitosas ao Senhor que nos deu sua Palavra.
Muito facilmente, nos esquecemos que o próprio Jesus foi tentado por alguém que, citando a Escritura, buscou desviá-lo da vontade do Pai. Se o diabo usou deste recurso com Cristo, tentando seduzi-lo à desobediência por meio de sua maneira peculiar de interpretar Palavra divina, porque não o faria conosco? A história nos mostra que ele não mudou em sua estratégia; e os resultados disso podem ser vistos, infelizmente, de forma abundante.
Uma das possíveis razões para esta séria situação é o descuido para com a história da Igreja. Consideramo-nos filhos do movimento da Reforma Religiosa do século 16, mas descansamos sobre uma compreensão superficial daquele momento e das questões fundamentais levantadas e defendidas, com a própria vida, pelos reformadores. Umas das batalhas daquele tempo foi pelo livre exame das Escrituras – mas nos dias de hoje, vemos que se está confundindo livre exame com livre interpretação da Bíblia. Aqui reside a origem do estado de confusão que vivemos como Igreja. Está, portanto, na hora de recolocar os pingos nos is.
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Este artigo suscita algumas perguntas como: Até que ponto a livre interpretação das Escrituras feita hodiernamente tem beneficiado o evangelho? Qual a importância do estudo da teologia, e disciplinas como Hermenêutica e a Exegese bíblicas para resolver erros grotescos como o abordado na reportagem?







